Um estudo sobre treinamento de oclusão vascular – ou Kaatsu Training

Por Sylvia Venzke, estudante de educação física

Uma meta-análise publicada pela Journal of Science and Medicine in Sport, em 2016, trouxe até nós um assunto pouco difundido no meio das academias e bem trabalhado na recuperação de pacientes em hospitais. Sabe qual é? Treinamento de oclusão vascular, ou Kaatsu Training, como preferirem.

Para entendermos melhor, o estudo traz uma breve explicação do que é esse tipo de treinamento. A oclusão vascular ou Kaatsu Training é uma técnica de treinamento que se originou no Japão, com Yoshiaki Sato, entre as décadas de 70 e 80 (SATO, 2005). Ela consiste em uma diminuição parcial ou total do fluxo sanguíneo para um determinado músculo, através de um mecanismo de pressão externo (como um esfigmomanômetro, por exemplo) nas extremidades distais dos membros, a fim de gerar maior agrupamento de sangue nos capilares distais do torniquete.

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O estudo começa indicando a importância da massa muscular em diversos fatores, desde aspectos fisiológicos, como contribuinte do controle glicêmico (THIEBAUD et al. 1982), até a melhora das atividades cotidianas e da performance em exercícios físicos (HERDA et al. 2013). Ou seja, a massa muscular é destacada por ser fundamental para atividades básicas do nosso organismo. Além disso, também demonstra que a negligência para com ela acaba por resultar em processos de atrofia muscular, queda do sistema imunológico e, inclusive, queda na sensibilidade à insulina (GUILLET et al. 2005).

Desse modo, para que haja controle positivo da massa muscular, é indicado realizar treinos resistidos (considerados intensos), com aproximadamente 70% a 85% de 1RM. Eles são recomendados para aperfeiçoar a musculatura (AMERICAN COLLEGE OF SPORTS MEDICINE, 2009). A meta-análise também mostra estudos recentes que falam de exercícios com baixa carga (<25% 1RM), associados à oclusão vascular, para estimular adaptações musculares significativas (p = 0.05). Estudos como o de TAKARADA et al. (2016) demonstraram que houve aumento de 14% de força nos extensores de joelho nos grupos que empregaram o uso da oclusão vascular, com 50% 1RM, em comparação com o grupo controle que apenas utilizaram o mesmo percentual de carga.

Os sujeitos que possuem restrição ao uso de cargas elevadas e precisam de estímulo de síntese proteica, encontram-se em grupos especiais, como idosos e pacientes em recuperação hospitalar. Esses sujeitos possuem restrições por diversos motivos (imobilizações, processos de reabilitação e recuperação, fragilidades ocasionadas pela idade, etc.) e a oclusão vascular surge como uma alternativa para que a perda de massa magra seja atenuada e, até mesmo, sejam obtidas respostas hipertróficas satisfatórias (ABE et al. 2006).  Esses estímulos associados ao treinamento de oclusão vascular podem ser tanto exercícios aeróbicos como exercícios resistidos, trazendo a possibilidade de trabalharmos intensidade com cargas submáximas em populações fragilizadas e idosos.

A meta-análise não excluiu nenhuma forma de exercício físico associado à oclusão vascular, mas as classificou em exercícios aeróbicos e exercícios resistidos. Assim, estudos que contavam com combinação de exercícios foram avaliados de maneiras distintas para tornar os resultados mais práticos. Além disso, foi analisada apenas a restrição mecânica da vascularização, uma vez que existem diversos métodos de treinamentos de oclusão vascular (câmara hiperbárica, ambiente hipóxico, mecanismo de alteração da atmosfera ou pressão reduzida de O2 foram descartados) – o que tornaria a comparação direta mais complexa.

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Então, a revisão trouxe quatro estudos que utilizaram exercício aeróbico juntamente à oclusão vascular e demonstraram aumento significativo de força (p <0.001) do grupo exposto ao protocolo de seis semanas de treinamento, em relação ao grupo controle. Ademais, 131 participantes demonstraram aumento da área de secção transversa (0,32cm²; p=0,03) na resposta hipertrófica, em relação ao grupo controle sem oclusão vascular. Já no treinamento resistido, o ganho de força foi significativamente maior quando a intensidade foi menor que 20% 1RM (p <0.001), sendo que protocolos de treino que duraram mais de oito semanas mostraram melhores resultados do que protocolos mais curtos. No entanto, o estudo abre uma nota importante: a diferença média dos grupos de treinamento resistido com oclusão vascular e grupo controle, apesar de estatisticamente significante, pode ter seu valor prático questionado, por ter sido relativamente pequena. Esses dados apresentados são de 246 participantes com aumento de até 0,41cm² (p=0.001) em comparação com o grupo controle.

Considerando ambas as modalidades de exercícios, quando combinadas com oclusão vascular, a maioria resultou num aumento de tamanho de 2-5cm² (p <0.001) em relação ao grupo controle, no que diz respeito a respostas hipertróficas. Ademais, treinamentos que duraram oito semanas ou mais tiveram aumento significativo de 7cm² em comparação aos grupos controle (p <0.001). Sendo assim, tanto as modalidades de programas de treinamento resistido com cargas baixas (20 30% 1RM) quanto sessões de aeróbicos curtos (<70min caminhada), que não trariam respostas hipertróficas e de força consideráveis, ao serem combinados à oclusão, promoveram esse efeito.

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Portanto, nada impede a oclusão vascular ser uma ferramenta multiuso para, além de prevenir a deterioração do músculo em grupos de tratamento hospitalar, ser também um método de reabilitação em atletas. Assim, a oclusão vascular oferece um ambiente intramuscular favorável para o ganho de massa magra, ideal para o atleta seguir sua periodização, com cargas menos intensas, mas aplicando força progressiva. Entretanto, é importante evidenciar que esse método é mais recorrente na reabilitação de pacientes hospitalares que possuem limitações ortopédicas ou para os quais a recomendação de cargas altas é contraindicada. Com isso, mais estudos que verifiquem a aplicabilidade do método de oclusão vascular em indivíduos saudáveis para ganhos de massa magra são necessários. De modo que suas vantagens não se limitem apenas a pessoas com alguma disfunção muscular e possam ser mais bem exploradas.

REFERÊNCIA

SLYSZ, J.; STULZ, J.; BURR, J.F. The efficacy of blood flow restricted exercise: A systematic review & meta-analysis. Journal of Science and Medicine in Sport 19 (2016) 669–675

Crédito foto: divulgação Internet