Somatotipo é eficiente para estratégias de treinamento?

Não é novidade que, cada vez mais, o exercício físico tem sido alvo de importantes pesquisas que o correlacionam com uma infinidade de benefícios para a saúde e, claro, com o aumento da capacidade fisiológica voltada para competições.

Os diferentes esportes exigem elementos anatômicos específicos para que se possa alcançar o mais alto nível de produção de força, resistência, potência, flexibilidade e outras capacidades importantes para cada modalidade. É por isso que a avaliação dessas características é um campo tão importante. Através dela, é possível identificar talentos esportivos e também prescrever o treinamento de maneira mais precisa e eficiente.

Existem inúmeros testes que podem ser aplicados para descobrir as reais necessidades de cada esporte. No campo estrutural anatômico, posso citar uma técnica de classificação corporal chamada de Somatotipo. Por meio de medidas morfológicas estruturais (como diâmetros e comprimentos) e medidas plásticas (como dobras e perímetros) ela classifica os sujeitos conforme sua relação física.

Originalmente essa técnica foi descrita por William Herbert Sheldon em 1940 para classificação de comportamento. Posteriormente, foi remodelada por Heath e Carter para aplicações descritivas de diferentes povos e etnias. Pela proximidade esportiva dos remodeladores, passou a ser usada para caracterizar o físico de atletas de diferentes esportes.

Hoje em dia, muitas pessoas usam o Somatotipo para criar estratégias de intervenção de treinamento que potencializam os resultados. Diversos profissionais e sites especializados têm propagado a ideia de que os planos de treinamento devem ser elaborados usando as características físicas e a classificação vindas do Somatotipo. A justificativa para tal aplicação vem de uma possível relação entre características fisiológicas hormonais e Somatotipo.

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O Somatotipo traz basicamente três classificações: Ectomorfo, Mesomorfo e Endomorfo.

Os defensores do uso do Somatotipo para prescrição de planos de treinamento “personalizados” presumem que sujeitos ectomorfos têm valores de secreção e ação de catecolaminas e outros hormônios catabólicos e, portanto, devem ter um treinamento menos volumoso. Já os mesomorfos teriam um plano intermediário equilibrando volume e intensidade por apresentarem hormônios anabólicos em valor maior que os anteriores. Por fim, os endomorfos precisariam de um treinamento mais volumoso para obter melhores resultados, principalmente em relação à hipertrofia, por causa da quantidade baixa de hormônios envolvidos com a lipólise e alta de hormônios lipogênicos, como a insulina.

Essas informações se expandiram para questões nutricionais. Ectomorfos precisariam de mais calorias vindas de carboidratos com sobra calórica de 500 a 1000kcal/dia. Mesomorfos poderiam ter uma dieta mais mista de macronutrientes com uma sobra calórica de 500kcal/dia. E endomorfos uma dieta mais proteica com leve equilíbrio energético, não havendo grandes sobras de kcal/dia.

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O que podemos concluir sobre tudo isso?

Muito simples… não há ciência boa até o momento que sustente essas intervenções de treinamento ou dieta baseada em Somatotipo. A grande maioria dos profissionais não entende a base fisiológica para gerar adaptações catabólicas ou anabólicas no organismo humano. Independente da característica física dos sujeitos, as leis da termodinâmica (gasto ou conservação de energia) seguem as mesmas regras básicas.

Se o objetivo é desenvolver massa muscular (hipertrofia) você precisa do estímulo certo (treinamento com pesos) que respeite uma variabilidade de volume e intensidade progressiva e que tenha uma sobra calórica para que os processos se concretizem. Não há possibilidade de anabolismo máximo sem calorias sobrando para tais processos. Se você quer gerar catabolismo (emagrecimento) precisa ter um gasto energético maior que o consumo.

A variabilidade da resposta hormonal é tão grande que não foi possível mostrar, até então, uma relação sólida e aceitável entre Somatotipo e níveis hormonais. Portanto, associar a prescrição de treinamento ou modificação dietética baseada em Somatotipo é não respeitar as evidências científicas. O pouco que se tem sobre isso mostra não haver relação entre Somatotipo e diferenças na secreção de hormônios – sejam eles anabólicos ou catabólico.

Em resumo, usar o Somatotipo para elaborar estratégias de treinamento ou dieta virou mais um achismo da área do que ciência de boa qualidade. Vou deixar aqui dois links de estudos que podem dar um pequeno direcionamento para tudo que escrevi até agora sobre Somatotipo, prescrição de exercícios e dieta.

• Somatotype and stress hormone levels in young soccer players.

• Body physique and dominant somatotype in elite and low-profile athletes with different specializations.

Att. Dr. Andre Lopes – PhD em Ciências do Movimento Humano


Foto de capa: By Granito diaz – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=38243966