A relação entre metabolismo energético, jejum e desempenho

A ciência sempre nos mostrou que atletas se beneficiam do consumo de carboidratos quando o assunto é desempenho físico. Para que possam desempenhar seu máximo físico, eles precisam treinar gestos específicos do esporte, realizar esforços físicos relacionados ao metabolismo predominante no esporte e consumir mais carboidratos. Aliás, esse consumo é importante principalmente antes das competições, porque aumenta as reservas de glicogênio e reduz a fadiga durante a prova.

E se eu contar a vocês que isso pode ser diferente?

Vejam que interessante esse estudo publicado em 2016 na renomada revista Cell Metabolism. Os autores avaliaram as vantagens bioquímicas da cetose em seres humanos usando uma forma de nutrição baseada em éster cetônico – sem o meio da produção corporal de cetona endógena por restrição calórica ou de carboidratos. Em cinco pesquisas com 39 atletas de alto desempenho foi possível descobrir que fazer períodos de jejum e treinar pode trazer benefícios adaptativos interessantes para o desempenho físico.

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Ao ouvir falar com mais frequência sobre fazer exercícios em jejum eu já dizia “para emagrecer isso não faz sentido, mas para estimular as vias metabólicas pode ser algo interessante”. Pois é, esse estudo mostra exatamente isso!

Quando provocamos um estado de cetose metabólica ocorre um desvio, uma necessidade de ativar vias “alternativas” de produção de energia. Isso faz com que as vias mitocôndrias oxidativas fiquem mais ativas e se desenvolvam de maneira mais rápida e potente. O estudo mostrou que a cetose diminuiu a glicólise muscular e as concentrações plasmáticas de lactato, proporcionando um substrato alternativo para a fosforilação oxidativa. A cetose aumentou a oxidação intramuscular de triglicerídeo durante o exercício físico. Isso aconteceu mesmo na oferta maior de glicogênio muscular, com carboidrato sendo ingerido durante a atividade e insulina elevada.

O estudo mostra que o metabolismo energético é flexível e adaptável. Charles Darwin já dizia que “não é o mais forte que sobrevive e sim o que melhor se adapta”. Se estamos no topo da cadeia alimentar, isso tem a ver com a capacidade de nos adaptarmos ao clima, esforço e alimentação. Durante o exercício físico, a demanda energética é enorme e a diversidade de rotas de produção de ATP precisa ser constante e dar conta da produção. Caso contrário, isso pode comprometer a manutenção da atividade. Conforme a intensidade da atividade aumenta, a predominância de utilização do metabolismo de gorduras parece reduzir. Isso abre a oportunidade/necessidade do metabolismo de carboidratos virar a estrela principal da produção de ATP (leia-se glicólise citosólica/mitocondrial). Mas, conforme os autores desse trabalho sugerem, os corpos cetônicos podem roubar a cena metabólica e ser preferencialmente usados, poupando carboidratos e aminoácidos, mesmo em atividades mais intensas e até no estado de repouso. Essa teoria é baseada nos resultados dos níveis intramusculares de acetil-carnitina (intermediário do transporte de ácidos graxos) e D-β-hidroxibutirato, que aumentaram de três a sete vezes nos participantes. Em contrapartida, os intermediários de glicolíticos diminuíram sem alterar o ciclo de Krebs durante o exercício.

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A briga é grande entre a melhor dieta ou consumo alimentar antes do exercício, o tipo de exercício físico e a intensidade que devemos usar para alcançar o melhor resultado. O fato é que todas as intervenções vão apresentar pontos positivos e negativos. Os resultados positivos encontrados em diferentes estudos podem mostrar que, na população x, tal intervenção pode ter gerado a resposta devido a capacidade adaptativa do grupo de amostra. E isso vale para os efeitos negativos que são encontrados em outro estudo que, obviamente, usou outra população e que pode apresentar flexibilidade metabólica diferente. Ciência tem esses detalhes, espécies de armadilhas de raciocínio e aplicação. Claude Bouchard já havia mostrado e sugerido essa variabilidade de respostas dentro e fora das famílias ao estudar exercício físico, saúde e hereditariedade.

O que é preciso se perguntar nesse momento é quanto fazer exercício em jejum ou em metabolismo cetogênico pode melhorar o desempenho. Os autores verificaram isso no quinto estudo, que mostrou que no momento em que ocorreu a combinação corpos cetônicos (Ester de cetona 3-hidroxibutil (R) -3-hidroxibutirato) + carboidratos houve um aumento de 2% no tempo de realização do teste ergométrico em bicicleta estacionária em comparação ao momento em que foi usado apenas carboidrato.

Deixa eu ler sua mente… Você já estava pensando em justificar jejum intermitente usando esse estudo, não é mesmo?

Se você trabalha com altíssimo desempenho, com intensidade de 40 a 75% da capacidade máxima, eu aconselho que considere a inclusão de treinamentos em jejum para aumentar a flexibilidade metabólica. Mas se você prescreve exercícios e mexe com a prescrição dietética de pessoas comuns, para fins de estética e saúde, é importante rever a aplicação dessa estratégia. Os próprios autores concluem que esse estudo se aplica para um momento metabólico específico e único montado para analisar a utilização de corpos cetônicos. Tal trabalho mostra a capacidade de modulação da flexibilidade metabólica humana.

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Agora, minha opinião sobre o estudo e tudo que conversamos até aqui: a importância dele  transcende seus resultados. A partir de novos trabalhos que envolvam esse tipo de estratégia podemos verificar a existência de possíveis alternativas para o tratamento de doenças que envolvem o metabolismo energético. Mas, até o momento, qualquer aplicação desses resultados, seja para saúde ou desempenho em população não atleta, passa a ser especulação e achismo. Entendo profundamente que a ciência é algo fascinante e seus resultados devem ser interpretados e aplicados com cautela, principalmente por profissionais formadores de opinião.

Dr. Andre Lopes – PhD em Ciências do Movimento Humano