O polêmico estudo PURE sobre gorduras e carboidratos

“Consumir gordura faz bem à saúde”.

Quem leu o estudo PURE (Prospective Urban Rural Epidemiology), publicado há um mês pela revista The Lancet, certamente deve ter se perguntado: será que todos estavam errados até hoje?

As diretrizes alimentares sempre recomendaram baixo consumo de gorduras, principalmente as gorduras saturadas, que, segundo a Organização Mundial da Saúde, não devem ultrapassar 10% do total de calorias consumidas por dia. Uma dieta rica em gordura saturada aumenta o colesterol, sendo este um fator de risco para doença cardiovascular. Acontece que o PURE trouxe resultados diferentes que questionam dezenas de trabalhos científicos já debatidos até hoje sobre dieta preventiva para eventos cardiovasculares.

Que questionamentos são esses?

Entre 2003 e 2013, os pesquisadores canadenses acompanharam, em 18 países, os hábitos alimentares de 135.335 mil indivíduos entre 35 e 70 anos. Foi um estudo de coorte prospectiva, observacional e de amostra gigante para avaliar a relação entre consumo de macronutrientes com mortalidade total, infarto fatal e AVC. No período de análise, a ingestão dietética foi registrada usando questionários de frequência validados e recordatórios de 24h.

Os nutrientes foram analisados pelos quintis de consumos e as substituições de carboidrato por gorduras feitas através de substituições isocalóricas.

Durante o acompanhamento, 5.796 pessoas morreram e 4.784 tiveram grandes eventos cardiovasculares. A conclusão do estudo associa dieta rica em gordura total e tipos individuais de gordura à menores taxas de mortalidade, e dieta rica em carboidrato à maiores taxas de mortalidade. Portanto, quem ingeriu mais gordura (35% das calorias diárias) teve 23% menos chances de óbito do que aqueles que consumiram menos gordura (10% das calorias diárias). Já quem ingeriu mais carboidrato (77% das calorias diárias) foi 28% mais propenso a morrer do que aqueles com menor consumo (46% das calorias diárias).

A pesquisa ainda diz que “a substituição de carboidratos por gordura saturada foi associada a um risco de AVC 20% menor. Não foram encontradas associações significativas com risco de AVC para a substituição de carboidratos por outras gorduras e proteínas”.

Na Europa, América do Norte e Oriente Médio, o percentual de gordura total foi maior que 30% e de gordura saturada maior que 10%. O maior consumo de gorduras monoinsaturadas foi observado na Europa, América do Norte, Oriente Médio e Sudeste da Ásia. As poliinsaturadas no Oriente Médio. E as proteínas na América do Sul.

Mas será que é isso mesmo?

O estudo PROVA alguma coisa?

NÃO!

O PURE é observacional, e apenas aponta associações, não relações de causa e efeito.

Uma semana após a publicação, a Universidade de Harvad se pronunciou através da School Of Public Health dizendo que as descobertas não são tão inovadoras quanto sugerem as manchetes e o estudo está cheio de problemas metodológicos – especialmente porque foi feito em diferentes países com diferentes graus de desenvolvimento socioeconômico.

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O que Harvard aponta:

A pesquisa categorizou as gorduras por tipos (total, saturada, monoinsaturada e poliinsaturada) e as proteínas em origem animal ou vegetal, mas não fez uma análise qualitativa mais detalhada sobre os tipos de carboidratos consumidos. Diferentes carboidratos têm diferentes efeitos sobre a saúde, por isso é importante considerar a qualidade e a quantidade em cada alimento.

Mesmo com a análise dos tipos de gordura, a avaliação é incompleta, porque não considerou gordura trans – que é bem alta na Ásia. O estudo, na verdade, descobriu que a substituição de gordura saturada por carboidratos não diminuiu o risco de mortalidade, a substituição da gordura poliinsaturada por carboidratos é que foi associada a menor mortalidade. No entanto, as gorduras poliinsaturadas foram avaliadas com base em alimentos e não em óleos vegetais, que têm mais ômega 6 e menos ômega 3.

O consumo elevado de carboidratos (acima de 60%) foi encontrado na China, sul da Ásia e Oriente Médio. Essa alta ingestão pode indicar uma “pobreza de dieta”. A maioria dos participantes estava em países de baixa renda, onde a dieta é rica em carboidratos e sódio e baixa em produtos de origem animal e óleo vegetal.

Nos participantes chineses – que são um terço da população total do estudo – a ingestão média de gordura total é de 17,7% das calorias diárias. No entanto, esse número é muito diferente de outras pesquisas que usaram relatórios similares e encontraram uma ingestão média de 30% das calorias diárias de gordura na China.

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Outras considerações

É bem importante notar que o histórico familiar de doenças cardiovasculares não foi levado em consideração no estudo, embora seja uma informação bem relevante já que é um fator de risco não modificável. Além disso, os próprios autores dizem que o PURE tem limitações, porque os dados de consumo foram coletados somente no início do estudo e os participantes podem ter tido uma mudança de vida ao longo dos dez anos de pesquisa. Os dados do QFA também podem ter sido influenciados pelo nível de educação e percepção individual dos participantes.

Att Dr. Andre Lopes – PhD em Ciências do Movimento Humano – UFRGS