Hipertrofia em idosos: será o exercício aeróbico uma alternativa às salas de musculação?

Por Sylvia Venzke, estudante de educação física

O exercício aeróbico já está bem consolidado no que diz respeito à sua recomendação para prevenção de diversas doenças (diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer e até mesmo ansiedade e depressão) – principalmente para os idosos.  O novo no assunto são os benefícios na melhora da função muscular desse público. Um estudo publicado pela American Journal of Physiology – Regulatory, Integrative and Comparative Physiology, em 2009, mostrou o exercício aeróbico como um meio de ganho de massa muscular em mulheres idosas.

Vamos entender um pouco mais sobre isso.

Primeiro, vale salientar que o objetivo do estudo não era abordar a hipertrofia como desfecho, em nenhum nível, mas sim avaliar a influência do protocolo de exercício aeróbico, com duração de 12 semanas, na musculatura inteira e nas miofibrilas. Além disso, uma das hipóteses dos autores era de que haveria melhora da função muscular e dos resultados a níveis celulares em relação à produção de força – tudo isso sem haver hipertrofia.  Para a surpresa deles, a resposta hipertrófica foi significativa.

A escolha da amostragem também merece destaque por ter sido extremamente cautelosa, cumprindo diversos critérios de inclusão que resultaram em um número de sete mulheres de aproximadamente 71 anos, todas saudáveis e não praticantes de exercício físico regular. Os métodos utilizados, descritos minuciosamente, contam com biópsia do músculo vasto lateral e ressonância magnética como medidores de volume muscular. Em relação ao nível celular, foram observadas as fibras musculares para analisar seu diâmetro, força máxima, encurtamento, velocidade de contração e características de força.

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Outro fato interessante foi o aumento do músculo quadríceps femoral em 12% em comparação com valores pré e pós-intervenção, além dos indivíduos manterem o seu IMC praticamente inalterado, caracterizando um aumento da massa magra e perda de tecido adiposo. Ou seja, os fatores de inclusão da amostragem permitiram que os resultados encontrados pudessem ser mais bem visualizados sem demais fatores de confusão (como obesidade e demais doenças), que poderiam influenciar o crescimento muscular. Em outras palavras, houve decréscimo de tecido adiposo, aumento de massa magra e, consequentemente, melhora da composição corporal dessas senhoras.

O aumento significativo (p <0.05) das fibras tipo I e a manutenção (leve aumento, não considerado importante) das fibras tipo IIa também agregam mais benefícios a esse tipo de exercício, especialmente na população idosa, prevenindo a perda de massa magra (sarcopenia) relativa à idade. E mais, os autores constataram o exercício aeróbio induziu alterações no metabolismo proteico e elevou a síntese proteica basal, o que levou a um ambiente intramuscular favorável ao crescimento muscular, assim como o exercício resistido faria (YECKEL, 2004).  Esses e outros argumentos, como a melhora da sensibilidade à insulina (FUJITA et al. 2007) e melhora na produção de força (HAYKOWSKY et al. 2005) foram sustentados por outros estudos apontados no artigo.

O artigo também traz estudos que demonstram resultados semelhantes em outras amostras. Em uma pesquisa, por exemplo, houve presença de maiores fibras musculares em atletas de endurance em comparação com indivíduos sedentários ou pouco ativos (COGGAN et al. 1990; HARBER et al., 2008). Em outra, constatou-se que o treinamento aeróbico alterou as características contráteis a nível celular, independente do aumento da fibra muscular. Ou seja, além do aumento muscular trazer consigo uma maior produção de força e melhorias gerais no músculo, otimizando a condição de vida para uma população acometida por alterações patológicas decorrentes da idade (VERNEY et al. 2006), ainda que ela não ocorra, ainda há benefícios advindos de mudanças a nível celular que independem dessa resposta hipertrófica.

Sendo assim, o estudo conclui que o exercício aeróbico traz mais benefícios do que pensávamos para a população idosa e expressa isso através de métodos prestigiados para suas avaliações. Além disso, também abre o leque da oferta de exercícios para idosos que não querem manter uma rotina de treinos resistidos, mas querem ter sua saúde conservada. Desse modo, podemos mudar nosso olhar sobre o exercício aeróbico apenas como uma ferramenta de perda de tecido adiposo e que traz consigo algumas mudanças fisiologicamente favoráveis.  O exercício aeróbico também auxilia a melhora da massa magra em idosos, sendo um estímulo anabólico. A partir disso, ele tem mais uma vantagem para ser aplicado em populações que carecem de maior cuidado.

REFERÊNCIAS

HARBER, M.P.; KONOPKA, A.R.; DOUGLASS, M.D.; MINCHEV, K; KAMINSKY, L.A.; TRAPPE, T.A.; TRAPPE, S. Aerobic exercise training improves whole muscle and single myofiber size and function in older women. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol 297: R1452–R1459, 2009.

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