Fibras musculares do tipo 2B não existem em humanos

O ser humano sem dúvida alguma é fascinante.

Somos curiosos e aprendemos com nossa curiosidade. Entretanto, alguns parecem não desenvolver toda a plenitude curiosa e de aprendizagem. Pensando nisso que acabo, muitas vezes, escrevendo sobre diversos assuntos que muitas vezes meus pares não se interessam. Sei lá se é falta de interesse ou curiosidade, algumas vezes confundo as duas. Para acalentar meu lado humano, digo minha curiosidade, venho lhes mostrar um artigo de 2001.

Algo relativamente antigo você deve pensar. Mas o mais curioso é  que ele vai fazer você aprender algo novo mesmo sendo “velho”. 

Lembro muito nítida em minha memória os professores de graduação dizendo: “o músculo esquelético humano é formado por fibras tipo 1 e tipo 2 A e tipo 2 …. Complete a frase.  A grande maioria fez como está nos livros… e disse para si mesmo “tipo 2B”.

Bingo!!!! Você ACERTOU!  Se estivéssemos falando de ratos.

Mas perguntei sobre as fibras musculares humanas.

O músculo humano é formado por diversos tipos de fibras musculares. Além disso, é possível mudar as respostas fisiológicas em algum grau dessas fibras. Esta plasticidade permite que possamos intervir por meio de estímulos externos para gerar melhorias em respostas bioquímica, fisiológicas e estruturais das fibras musculares. Por meio de planejamento de movimentos, cargas e tempos de exposição a esses estímulos podemos desenvolver mais força e resistência, por exemplo.

Inicialmente, os músculos foram classificados contendo fibras rápidas e lentas. Mais tarde receberam a classificação a respeito das cores, fibras brancas e vermelhas. Isso aconteceu por que algumas espécies apresentam músculos com fibras mais rápidas e mais esbranquiçadas nas técnicas histoquímicas, outras apresentam mais fibras avermelhadas devido à grande quantidade de mioglobina e conteúdo capilar. Isso permite que esses últimos tenham maior capacidade oxidativa e os primeiros sejam mais glicolíticos, o que ao meu ver é uma melhor forma de generalizar.

Mas para resumir isso fez com que as células musculares de mamíferos fossem inicialmente divididas em tipo 1 e tipo 2, devido principalmente a coloração gerada pela técnica histoquímica que se mostra mais clara ou escura devido a sensibilidade das fibras ao pH (potencial de hidrogênio) e não devido a ATPase – enzima encontrada na “cabeça” da ponte cruzada (leia sobre os filamentos deslizantes) da miosina, que tem a responsabilidade de quebrar o ATP para que se tenha energia para contração muscular.

As fibras tipo 1 tem a ATPase mais lenta e as fibras tipo 2 tem uma ATPase mais rápida, por isso a nomenclatura fibras lentas e rápidas. Nos seres humanos vamos descobrir que as fibras tipo 2 podem ter uma velocidade de quebra de ATP 3 vezes mais rápida que as fibras tipo 1. Entretanto, as técnicas histoquímicas não são capazes de identificar essa atividade enzimática. Por isso, por muitos anos se manteve a classificação em fibras de tipo 1 e fibras de tipo 2 ou fibras lentas e rápidas respectivamente. Mais tarde surgiu a divisão em fibras tipo 1, tipo 2A e fibras tipo 2B. Artigo original.

Com o avanço das técnicas enzimáticas de análise pode-se verificar a existência de 7 tipos de ATPases diferentes no músculo esquelético humano. Então além das fibras tipo 1, tipo 2A e tipo 2B surgiram as intermediárias – tipo 1C (mais lenta de todas), tipo 2C, tipo 2AC, tipo 2AB. Em resumo, temos 7 tipos de fibra muscular esquelética, tipo 1, 1C, 2C, 2AC, 2A, 2AB e 2 B. Mas nem todos os livros e artigos descrevem todos os tipos, geralmente se mantem os 3 tipos básicos – tipo 1, tipo 2A e tipo 2B. Artigo original.

Curso online sobre fisiologia humana – Muito bom para atualizar sobre esse assunto. 

E aí começa um pouco a confusão sobre nomenclatura. Estes trabalhos que verificaram esse subgrupo de velocidade de ATPase usou em seus experimentos fibras musculares de rato. Muitos estudos também usavam coelhos e outros animais maiores. Mas poucos se atentavam em usar fibras de músculo esquelético humano. Em pequenos mamíferos surgiu uma isoforma de cadeia pesada de miosina que está entre os tipos 2A e tipo 2B, e foi batizada como fibra tipo 2X. Ao se verificar as fibras musculares de humanos, e usando técnicas avançadas de análise para recolher diversos níveis de evidência, inclusive análise de DNA foi possível notar um grande equívoco.

As fibras humanas que eram batizadas como 2B devido a transferência de análise de animais para humanos, foi melhor comparada e rebatizada como fibras tipo 2X. Com essa descoberta foi possível verificar que seres humanos não expressam fibras tipo 2B que são as que tem a atividade mais rápida das isoformas de miosina. Esse tipo de ATPase é expressa em animais.

Devido a tudo isso que encontramos alguns livros de fisiologia do exercício, alguns artigos tratando as fibras humanas do tipo 2X como sendo fibras tipo 2B. Mas não esqueça que nos músculos de humanos devemos resumir os tipos de fibras baseada em 3 isoformas de cadeia pesada de miosina, fibras que contem ATPase tipo 1, tipo 2A e tipo 2X (antigamente chamada equivocadamente de 2B). Artigo original.

Acho que matei minha curiosidade sobre fibras musculares e, quem sabe, você tenha aprendido algo ao ler esse texto. Se você acredita que essa informação é importante e vai ajudar nossa área a se desenvolver e se atualizar, eu peço que compartilhe o texto em suas redes sociais. Atitudes como essa nos ajudam a divulgar a boa informação.

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Forte abraço.

Att Dr. Andre Lopes

PhD em Ciências do Movimento Humano – UFRGS