Tire todas as suas dúvidas sobre o EPOC (consumo de oxigênio pós-exercício)

Quando terminamos um exercício, nosso corpo precisa de mais oxigênio do que no início do treino. Esse consumo excessivo de oxigênio chama-se EPOC. A literatura (quando vista com olhos críticos) mostra que a diferença de gasto calórico durante o EPOC, quando comparada ao repouso, é baixa e de curta duração. Quando essa comparação passa a ser feita entre intensidades de exercício, a coisa fica mais estreita ainda.

No estudo que vou mostrar hoje, cientistas japoneses analisaram se a massa livre de gordura poderia influenciar nos valores encontrados no EPOC após exercícios de alta intensidade.

A relação entre a massa livre de gordura (MLG) e o excesso de consumo de oxigênio pós-exercício (EPOC) não é bem explicada por causa do número relativamente pequeno de sujeitos estudados. Nesse trabalho, foram investigados efeitos da alta intensidade em 250 atletas de várias modalidades (corrida, rugby, futebol, canoagem, ciclismo e voleibol), com idade entre 16 e 21 anos. Foi medido o consumo máximo de oxigênio (VO2máx) e, usando a bolsa de Douglas, a Massa Livre de Gordura (MLG) e a Massa de Gordura (MG) medidas com pesagem hidrostática. Os resultados da densidade foram convertidos em percentuais por meio da equação de Brozek (1963). O estímulo de atividade foi a realização de esteira na velocidade máxima durante o período de tolerância – período que durou entre 45-105 segundos. Depois desse processo, o EPOC foi medido durante 40 minutos.

Resultados

Os resultados do estudo passaram por um tratamento de correlação para identificar o que poderia explicar o valor de EPOC. E também foram comparados aos resultados dos melhores atletas profissionais – publicados por Kuroda (1973). O melhor resultado foi a correlação encontrada entre a Massa Livre de Gordura (MLG) e EPOC, bem como com o VO2máx e Taxa Metabólica de Repouso (TMR). Em segundo lugar, embora tenha correlação entre EPOC – VO2max e TMR, após a correção relativizada pela MLG, a significância deixou de existir.

Além disso, esses achados sugerem um efeito grande de MLG na EPOC e EPOC/VO2max. Isso poderia ser explicado pela associação de uma MLG alta com mioglobina (transportador e armazenador de oxigênio muscular). Isso seria importante para os atletas, pois a mioglobina desempenha papel importante na ressíntese de ATP, ajudando na recuperação entre os estímulos de alta intensidade. Além disso, o uso de curtos períodos de treinamento de alta intensidade melhoraria a força muscular e aumentaria a atividade das enzimas glicolíticas. Dessa forma, uma pessoa com maior MLG apresenta um EPOC maior e uma capacidade anaeróbia também alta.

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Análises críticas

Primeiro, trata-se de um estudo com número de sujeitos invejável. É muito difícil reunir um grupo tão grande para uma pesquisa. A diversidade de atletas foi interessante, mas mal aproveitada. Por qual motivo eles não fizeram a separação dos grupos para realizar as análises? Eu acharia interessante ter esses resultados também categorizados pelos esportes praticados pelos sujeitos.

Fiquei curioso para saber quanto que é esse valor de EPOC entre os grupos de atletas transformado em Kcal. Quem sabe isso não tenha sido feito porque as coletas aconteceram com a bolsa de Douglas, que não permite uma coleta constante?

Mesmo assim, eu teria feito uma média dos valores para mostrar as calorias

A análise da composição corporal foi medida com pesagem hidrostática e converteram usando a equação de Brozek (1963). Eles acreditam que essa maneira é padrão ouro. A equação de conversão da densidade em resultados foi validada em três homens brancos de 25, 35 e 46 anos. Legal aplicar isso em japoneses, atletas (diversas modalidades) e com idade entre 16 e 21 anos. Super indicado! Além disso, eles associam os resultados a variáveis fisiológicas (não medidas), que são dependentes da maturação sexual, como, por exemplo, a mioglobina, a própria massa livre de gordura (a parte muscular) e VO2max.

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É pessoal, não adianta querer discutir artigo científico se você não sabe analisar criticamente um estudo. Cada dia mais tem “cientista” mostrando resultado e promovendo “mudança de paradigma”. Alguns adoram dizer: “para saber de treinamento tem que praticar”. Eu concordo em partes com isso. É totalmente transferível para a parte científica essa afirmação, se você não produz ciência, não vive ou viveu essa realidade, você não terá todas as habilidades necessárias para analisar artigos científicos.

CALMA!

É possível aprender isso! Quer ser bom na ciência? Pratique ela no laboratório e na vida! Faça de tudo para ter iniciação científica durante sua graduação, leia artigos e tire dúvidas com seus professores. Faça parte de um grupo de estudos, aprenda as técnicas e detalhes de montagem de projetos, coleta de dados, análise de resultados e, o principal, lembre-se todos os dias que a ciência deve ser algo imparcial.

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