Álcool e privação de sono nas mudanças de humor e respostas hormonais e inflamatórias

O desempenho humano é influenciado diretamente por fatores biológicos e comportamentais. Hoje aqui no blog vou falar sobre a relação entre dois deles: consumo de álcool e privação de sono.

Um artigo – do qual sou um dos autores – publicado em dezembro no The Chinese Journal of Physiology comparou os efeitos isolados e combinados da ingestão de bebida alcoólica e privação do sono em mudanças no estado de humor e nas respostas hormonais e inflamatórias de homens adultos saudáveis. O estudo selecionou apenas indivíduos do sexo masculino por causa das alterações hormonais causadas pelo ciclo menstrual feminino.

Em muitas situações, o consumo de álcool e a privação do sono acontecem simultaneamente. De acordo com RODRIGUES et al. (2017), “o uso de álcool antes do sono diminui o deslocamento rápido do olho (sono REM), aumentando o cansaço, tempo de reação e os níveis de cortisol e outros hormônios. Além disso, o consumo combinado de álcool e privação de sono é muito comum durante os eventos sociais. Ambos são associados à resposta neurológica ao estresse. Essa reação ao estresse é principalmente regulada no eixo hipotálamo-hipófise-adrenocortical (HPA). A avaliação do estado de humor fornece um método rápido de avaliação psicológica nível de estresse em pacientes com obsessivo-compulsivo transtornos de personalidade e em atletas, idosos e jovens adultos”.

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Os testes
Dez homens saudáveis foram randomizados em quatro situações:

(A) Ingestão de placebo (cerveja sem álcool) + sono normal = PLA +SLE
(B) Consumo de álcool (1g/kg de cerveja) + sono normal = ALC + SLE
(C) Ingestão de placebo + privação de sono = PLA +SDP
(D) Consumo de álcool + privação de sono = ALC + SDP

Os sujeitos tiveram uma noite de sono normal ou com privação no laboratório durante oito horas. Depois de cada condição experimental, foram colhidas amostras de sangue pela manhã para avaliar os níveis séricos de glicose, cortisol, testosterona, epinefrina, interleucina-6, interleucina-10 e C-reativa proteína. Foi realizada uma regressão linear múltipla para identificar quais marcadores de sangue poderiam explicar a mudança no estado de humor nas condições experimentais. Os participantes também preencheram um questionário com perguntas sobre o estado do humor.

Resultados

A hipótese levantada durante o estudo era de que o grupo D, que consumiu álcool e teve privação do sono, teria mais mudanças expressivas nos resultados primários em comparação com as condições isoladas (apenas consumo de álcool ou apenas privação do sono).

No entanto, os resultados mostraram que não houve efeito significativo de nenhuma condição sobre as respostas hormonais e inflamatórias testadas e que os efeitos combinados provocaram uma redução nos níveis de glicose. O nível de glicose foi significativamente menor no grupo D em relação ao grupo A (que ingeriu cerveja sem álcool e teve uma noite de sono normal).

Os tipos de atividades durante os períodos de privação induzem diferentes efeitos. No caso do estudo, o videogame foi a principal ocupação. Portanto, especula-se que o aumento da glicose ocorreu em decorrência da ingestão do álcool combinada com o gasto de energia cerebral causado pelo jogo – mas isso ainda precisa ser investigado.

Também no grupo D, os sujeitos tiveram alteração de vigor, fadiga e perturbação total do humor. Esses dois últimos itens, possivelmente, têm associação com as mudanças nos níveis de cortisol.

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Considerações finais

Acreditamos que a falta de mudanças hormonais e inflamatórias pode ter ocorrido por tratar-se de uma amostragem pequena. Além disso, houve ausência de monitor de sono via actigraph e dos registros do sono uma semana antes dos testes.

Por outro lado, o estudo traz questões importantes do ponto de vista das respostas bioquímicas e de humor depois da ingestão de álcool e privação do sono, considerando que essa combinação é comum nos eventos sociais, por exemplo.

Att. Dr. Andre Lopes – PhD em Ciências do Movimento Humano