O peso das mochilas pode interferir no desempenho dos atletas?

Pense nas modalidades das corridas de aventura. Trekking, mountain bike, canoagem… Como essas competições multiesportivas em meio à natureza podem durar muitas horas ou até dias, os atletas geralmente costumam carregar mochilas com os equipamentos obrigatórios, alimentos e água. Isso significa que, quanto mais distante for a prova, mais peso eles têm que carregar.

E esse é o ponto. Será que o peso das mochilas pode interferir no desempenho dos atletas?

Hoje eu vou detalhar aqui no blog um estudo bem interessante sobre o assunto desenvolvido na Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança da UFRGS. Até então, poucas pesquisas tinham analisado esse aspecto, mas essa, que foi publicada na revista Plos One, avaliou as relações entre o peso carregado e uma série de determinantes fisiológicos do desempenho, como consumo máximo de oxigênio e gasto energético, por exemplo.

Os testes foram feitos em laboratório com doze corredores de aventura (idade 31,3 ± 7,7 anos, altura 1,81 ± 0,05 m, massa corporal 75,5 ± 9,1 kg, volume de treinamento 39,12 ± 9,02 km por semana, experiência AR 64 ± 49 meses), que tiveram os dados coletados em cinco sessões.


Foto: divulgação UFRGS

Na primeira sessão, os atletas apenas conheceram as cargas, equipamentos e protocolos e informaram dados importantes como peso, idade, tempo de treinamento e proporção de gordura corporal.

Os testes práticos aconteceram nas três visitas seguintes ao laboratório. Num dos dias não havia carga na mochila, no outro a carga era equivalente a 7% da massa corporal e outro com a carga de 15% da massa, escolhidos de forma aleatória.

Os homens realizaram um aquecimento em uma esteira rolante, inclinados a 1%, utilizando um analisador de gases. Nos primeiros cinco minutos, a velocidade foi 6 km/h. A cada minuto, a velocidade aumentava em 1 km/h, até a exaustão dos atletas. Nessa etapa, foram coletados dados como frequência cardíaca, consumo de oxigênio, quantidade de gás carbônico expelido e limiares ventilatórios (pontos de transição que podem determinar limites de um treino).

Na última sessão, os testes foram realizados novamente com as três cargas (6 minutos cada teste), mas os atletas correram em uma velocidade 10% menor do que aquela alcançada no segundo limiar ventilatório. Portanto, cada um teve uma velocidade específica para cada carga. As taxas de consumo de oxigênio e produção de dióxido de carbono foram medidas continuamente.

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Resultados

Segundo os pesquisadores, “a primeira e mais importante questão do estudo foi determinar se existe um efeito do carregamento de carga na execução da absorção máxima de oxigênio (V02MAX), limiares ventilatórios e custo do transporte em atletas experientes de AR”.

Os testes mostraram que os limiares ventilatórios e o consumo máximo de oxigênio não tiveram alterações significativas com o peso das mochilas. Na verdade, o impacto maior ocorreu na economia de corrida, ou seja, na quantidade de energia metabólica gasta para fazer uma atividade numa determinada distância ou velocidade. Esse resultado é um dos pontos mais importantes do estudo. Segundo pesquisadores, os atletas de corrida de aventura precisam buscar um equilíbrio entre quantidade de comida que precisam carregar para manter a nutrição durante a prova e a quantidade de energia gasta para transportar essa comida. Se adicionarem muita carga, há um preço a ser pago.

Os pesquisadores também concluíram que os atletas tiveram maiores diferenças no custo do transporte ao carregar cargas de 15% a 7% da massa corporal em comparação com a condição descarregada.

Além disso, foi observada a relação entre o peso da mochila e a velocidade de corrida recomendada. A velocidade deve ser reduzida na mesma proporção do aumento da carga para que o custo energético se mantenha. A cada 1% da própria massa corporal que o atleta carrega, é importante diminuir 1% da velocidade que correria sem esse peso.

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De maneira geral, esse estudo chega para colaborar com o treinamento e a preparação dos atletas de corrida, porque mostra que as intervenções que melhoram o funcionamento da economia com cargas podem melhorar também a performance desses competidores. Os resultados trazem um novo olhar sobre o assunto – até então com pouca abordagem.

Segundo os pesquisadores, “as descobertas podem ser utilizadas para otimizar o desempenho desses atletas ao individualizar as intensidades de treinamento relacionadas ao transporte de carga”.

Att. Dr. Andre Lopes – PhD em Ciências do Movimento Humano