Cineantropometria ISAK

Cineantropometria

Historicamente o homem busca compreender como suas características morfológicas podem influenciar fatores externos e internos, confrontando dados fisiológicos ou de desempenho com medidas do corpo humano. Indiscutivelmente, é da natureza humana a busca por respostas, principalmente quando isso significa comparar diferentes sujeitos ou variáveis. O ser humano adora fazer comparações. É por este motivo que a cineantropometria vem se destacando cada vez mais na área do esporte e da saúde. Esta ciência é considerada a interface quantitativa entre a estrutura e a função do corpo. No entanto, muitas vezes quando pensamos em ciência acabamos negligenciamos sua origem e o seu significado. Por acreditamos que a fundamentação teórica é de extrema importância para construção do saber, iniciaremos desvendando a origem etiológica desta expressão que foi descrita originalmente por Willian Ross em 1972 em analogia a biometria. A palavra cineantropometria é composta pela junção de três termos do vocábulo grego:

CINE (KINEIN) = MOVIMENTO

ANTROPO (ANTHROPOS) = SER HUMANO

METRIA (METREIN) = MEDIÇÃO

Consequentemente, podemos presumir que a cineantropometria se propõe a investigar o ser humano em movimento. Entretanto, não devemos acreditar que ela se restringe a um grupo reduzido de possibilidades. As informações que ela fornece são facilmente aproveitadas por profissionais da nutrição, antropologia, biomecânica, medicina, educação física, fisioterapia, pediatria, entre outros. Sua grandeza está vinculada em subsidiar conhecimento para que outras áreas possam promover melhorias em prol da saude, do conforto e do desempenho. Portanto, a cineantropometria tem o papel central de reunir informações na tentativa de solucionar os problemas apresentados pela população. Talvez, o principal ramo desta ciência que sustenta toda sua fundamentação teórica, sendo considerado o eixo central para a proliferação destes conhecimentos é a antropometria. É nessa vertente que iremos desenvolver nosso raciocínio para que ao final da leitura você possa conhecer um pouco mais sobre este assunto extraordinário. Neste primeiro capítulo, iremos abordar os fatos históricos que contribuíram para o desenvolvimento da antropometria ao longo dos anos.

Antropometria

Os primeiros registros desta terminologia datam o início século XVII na Universidade de Pádua. Seguramente o primeiro a utilizá-la foi alemão Sigismund Elsholtz (1623-1688) em sua tese de doutorado inspirada nas leituras de Pitágoras e Platão, que posteriormente foi publicada em 1654 com o nome de Anthropometry. Entretanto, coube ao belga Lambert Adolphe Quételet (1796-1874) consolidar esta ciência ao utilizar o próprio termo para descrever algumas medidas do corpo humano e de massa corporal que eram utilizadas em suas investigações. Semelhante a cineantropometria, esta ciência também teve sua origem dada pela junção de palavras do vocábulo grego:

ANTROPO (ANTHROPOS) = SER HUMANO

METRIA (METREIN) = MEDIÇÃO

No entanto, Quételet somente ratificou algo o que já vinha sendo utilizado desde a antiguidade. Tranquilamente o conhecimento antropométrico nos remete a primeira vez em que o homem precisou confeccionar suas vestimentas a fim de apresentar-se em público e proteger-se do frio. Para concretizar tal tarefa era preciso mensurar o corpo com as ferramentas disponíveis na época. Embora um tanto rudimentar, este certamente foi o início das técnicas antropométricas, mesmo que realizado instintivamente e sem muita referência ou metodologia.

Não obstante, alguns estudiosos conferem a origem oficial desta ciência à arte clássica, período em que os pensadores gregos se preocupavam em estudar a proporção corporal. Este movimento ficou conhecido como Antropometria Estética. Possivelmente, a obra que melhor represente esta época e que sustenta toda teoria de proporcionalidade é o Doríforo de Policleto (450-430 a.C.), o qual dizem representar o modelo ideal de formas e proporções. A história descreve que esta escultura foi confeccionada utilizando peças perfeitas de dezenove homens, simbolizando o ser ideal. Talvez este seja o primeiro momento datado na história em que o homem demonstra seu interesse pela busca do corpo perfeito. Neste mesmo período, Hipócrates (460-365 a.C.) formulou a teoria sobre o ambiente exercer influência direta nas características morfológicas do ser humano (principio da aclimatação). Este filósofo também estabeleceu a primeira classificação de biotipagem conhecida (tísicos e apopléticos). Por sua vez, Aristóteles (384-322 a.C.) fez as primeiras observações sobre o ato de caminhar, relatando a ação que os membros inferiores exerciam contra o solo (princípios da biomecânica).

         

FIGURA 1.1 – Doríforo de Policleto. Relata a história que seus segmentos eram cópias fiéis dos membros de diversos homens para simbolizar o corpo perfeito.

 

Passados alguns séculos, no período renascentista os ideais de arte e ciência seguem outros rumos, incorporando novos significados e inspirações. Surgem então, as escalas de medida e os conceitos de simetria e proporcionalidade, os quais foram desenvolvidos nos diversos campos do conhecimento como anatomia, arquitetura, medicina e engenharia. Nesta época, surgiram grandes personalidades como Leon Battista Alberti (1404-1472), Leonardo Da Vinci (1452-1519), Albrecht Dürer (1471-1528), Michelangelo Buonarroti (1475-1564), Andreas Vesalius (1514-1564) e Galileu Galilei (1564-1642). Estes artistas contribuíram com suas obras e auxiliaram – mesmo de modo indireto – a formar a base da antropometria e das ciências que conhecemos hoje.

Em 1464, Leon Alberti usou um instrumento chamado Definidor para quantificar as características de proporcionalidade. A partir destas percepções começaram os estudos sobre as escalas geométricas, tendo como símbolo destes estudos o Homem de Vitruvian de Da Vinci. Em 1504, Michelangelo compreendeu que a massa corporal aumentava ao cubo quando comparada ao comprimento do ser humano. Esta relação o fez criar a Estátua de David, monumento esculpido com proporções básicas de um homem normal para que sua base tivesse um apoio maior e não desmoronasse. Além disso, esta escultura traz consigo características que representam a maturação sexual. Se a observarmos com atenção, notaremos desproporções em seus segmentos, como por exemplo, as mãos e os pés de tamanho adulto e a genitália de tamanho infantil, simbolizando passagem da infância para fase adulta. Em 1523, Albrecht Dürer divulga seu estudo mostrando a diversidade física dos seres humanos. Este trabalho foi fruto de observações sistemáticas e medições realizadas em um grande número de pessoas. Em 1543, Andreas Vesalius publica a obra De Humani Corporis Fábrica, descrevendo minuciosamente a anatomia humana com desenhos de alta qualidade.

FIGURA 1.2 – Personalidades que colaboraram para o desenvolvimento da cineantropometria e antropometria. Dürer (A), Vesalius (B), Da Vinci (C), Galilei (D), Alberti (E) e Michelangelo (F).

 

Contudo, foram os antropólogos e paleontólogos do século XIX que impulsionaram a antropometria como ciência. Estes pesquisadores utilizavam ferramentas da engenharia para medir fósseis de outras eras. Em 1879, o detetive francês Alphonse Bertillon (1853-1914) utilizou medidas antropométricas para identificar criminosos. Este método ampliava a capacidade de vigilância utilizada na época, dando origem a Antropometria Criminal. Por ser um sistema complexo, seu método foi superado em 1910 pela análise de digitais. Neste período, Ales Hrdlicka (1869-1943) líder da escola americana de antropologia iniciou a descrição das técnicas de medição com grande contribuição de Ashley Montagu (1905-1999), que popularizou a relação entre raça e política. Seus trabalhos buscavam entender a influência dos fatores sociais na evolução física e comportamental do homem. Desta forma, definiu-se a antropometria como um sistema de mensuração do corpo humano.

No início do século XX, o escocês D’Arcy Thompson (1860-1948) publicou seu tratado descrevendo os princípios matemáticos aplicados à biologia, denominado On Growth and Form. Esta obra proporcionou uma ideia de como os níveis da física atuam sobre os seres biológicos para determinar sua forma. Em 1921, o antropólogo Tcheco Jindrich Matiegka (1862-1941) apresenta o conceito de fracionamento do corpo em diferentes tecidos. Esta compartimentalização foi possível a partir da análise de medidas antropométricas e dados anatômicos obtidos em cadáveres que sofreram execuções na Alemanha durante o século XIX. Matiegka correlacionou valores de massa muscular com perímetros corporais e de dobras cutâneas com a força expressa em testes de dinamometria manual. Logo após estes acontecimentos, iniciam os estudos de crescimento e desenvolvimento na Europa e na América do Norte, onde a antropometria começa a ser aplicada em larga escala no exercício físico e em tudo que se refere à ergonomia, como por exemplo, na determinação do espaço interno de aeronaves e veículos militares.

No campo da saúde, a antropometria vem se destacando na investigação do sobrepeso e a sua relação com o surgimento de alterações patológicas. Estes estudos foram patrocinados por seguradoras que viam em seus clientes a possibilidade de perder dinheiro. Esta suspeita foi crescendo à medida que os relatórios apontavam que sujeitos mais pesados apresentavam maior propensão a adoecer, consequentemente prejudicando as finanças da empresa. Podemos citar a Metropolitan Life Insurance Company como uma das principais investidoras nestes estudos. Em decorrência destas pesquisas, foram elaboradas as tabelas normativas para massa corporal e estatura, as quais são utilizadas até os dias de hoje. Certamente, você já deve ter visto e até mesmo aplicado estas tabelas em sua prática profissional. O Índice de Massa Corporal (IMC) é o exemplo que melhor representa estas normatizações.

Adicionalmente, os valores de sobrepeso e estatura também eram utilizados como fator discriminante no recrutamento de soldados no exército americano, o que levou a exclusão de diversos atletas do serviço militar. No entanto, o índice de sobrepeso apresentado por alguns recrutas tinha como origem a maior quantidade de massa muscular e não uma concentração elevada de tecido adiposo. Por este motivo, o capitão Albert Behnke Jr (1924-1992) tratou de buscar um método alternativo para diferenciar o tecido adiposo da massa muscular, evitando assim que sujeitos saudáveis, porém pesados, fossem de certa forma discriminados. Isso se fez possível com a criação da hidrodensitometria, também conhecida por Pesagem Hidrostática, buscava estimar a densidade corporal dos recrutas, diferenciando peso magro do peso gordo. Devido a grande popularidade do método, surgem diversas equações de regressão para estimar o percentual de gordura a partir das dobras cutâneas.

Neste mesmo período, a antropometria passa a viver uma época obscura com os ideais nazistas de discriminação por características morfológicas, sobretudo as craniofaciais propostas pelo médico alemão Joseph Mengele (1911-1979). Popularmente conhecido nos campos de concentração como O Anjo da Morte (Todesengel), fundamentou sua teoria de supremacia racial submetendo seus prisioneiros a experiências cruéis. Podemos citar a dissecação in vivo de anões e mestiços, a submersão de prisioneiros em caldeirões com água fervente para testar suas reações, a tentativa de alterar a cor dos olhos injendo substâncias químicas em crianças, a busca por um método de esterilização em massa, entre outras atrocidades que não eram justificaveis do ponto de vista humano e nem científico. A história relata que os prisioneiros que conseguiam sobreviver a estas experiências eram assassinados para posterior dissecação. Este e outros casos de mau uso da antropometria estão bem documentados no livro de Stephen Jay Gould (1941-2002), The Mismeasure of Man (1981).

FIGURA 1.3 – Avaliação craniofacial. Durante o período nazista, houve uma tentativa de usar as técnicas antropométricas para comprovar a supremacia da raça ariana.

 

O primeiro relato de um estudo longitudinal sobre o crescimento e desenvolvimento faz menção a Universidade de Iowa – Estudos Unidos – em 1914. Denominado Child Welfare Research Station, foi conduzido por um grupo de psicólogos e fisiologistas liderados por Bird Baldwin (1875-1928). Estes pesquisadores acompanharam 1924 crianças ao longo de nove anos para levantar dados que pudessem ser utilizados na elaboração de curvas de crescimento, porém não obtiveram êxito em suas investigações visto a variabilidade biológica da amostra observada. Após a segunda guerra mundial, James Mourilyan Tanner (1920-2010) do Institute of Child Health – Inglaterra – liderou o estudo de maior renome nesta área. O Harpenden Growth Study (1948-1971) deixou como legado a padronização de técnicas antropométricas, as curvas de crescimento e as escalas de maturação sexual. Outra grande contribuição deste estudo foi a construção de um instrumento que mensurava com maior precisão as dobras cutâneas. Em homenagem a cidade, este plicômetro recebeu o nome de Harpenden – considerado um dos instrumentos mais precisos e confiáveis para avaliar a espessura das dobras cutâneas. Na mesma época, um renomado grupo de pesquisadores aprofundou os conhecimentos sobre maturação biológica no que foi considerado o estudo mais longo desta natureza. O Fels Longitudinal Study forneceu informações valiosas no âmbito da maturação, crescimento e epidemiologia, culminando na criação do primeiro método para determinar a idade óssea de um indivíduo.

Em 1953, Ancel Keys (1904-2004) e Joseph Brozek (1913-2004) publicam seu transcendental artigo Body Fat in Adult Man, o qual resumia todos os acontecimentos na área até o referido momento. Nos anos sessenta, a antropóloga Barbara Heath e seu colega Lindsay Carter fizeram algumas correções na obra originalmente descrita por Wolin Sheldon, que idealizou a técnica do Somatotipo para descrever a estrutura física do ser humano em três condições diferenciadas: adiposidade (Endomorfia), tônus muscular (Mesomorfia) e longitude corporal (Ectomorfia). Sheldon as relacionou com aspectos psicológicos, o que evidentemente não foi bem aceito pela comunidade científica, devido à baixa associação entre as variáveis analisadas. Por sua vez, Heath e Carter aprimoraram a técnica do somatotipo mostrando que as alterações geravam um sistema muito mais objetivo para classificar os sujeitos utilizando dados antropométricos. Este conhecimento foi colocado em prática nos Jogos Olímpicos do México (1968) de Montreal (1976).

Em 1974, Albert Behnke e seu aluno Jack Wilmore apresentam o manuscrito Seres Humanos de Referência e um Sistema de Proporcionalidade. Este estudo foi desenvolvido com base na Somatograma proposta por Behnke e perímetros corporais. Ainda nos anos setenta, William Ross e sua colega Noela Wilson, introduziam o sistema de proporcionalidade denominado Phantom. Este novo sistema corrige os erros matemáticos e conceituais que existiam em muitas tabelas antropométricas da época. Em 1978, a cidade Brasília sediou um congresso internacional que culminou na criação de subgrupos destinados a estudar os aspectos da cineantropometria, denominado International Working Group in Kinantropometry (IWGK). Paralelamente a isso, no Leste Europeu os alemães Tittel e Wutscherk publicam a obra Sportanthropometric (1972), seguindo os princípios metodológicos e as equações propostas por Matiegka.

No início dos anos oitenta, o grupo liderado por Willian Ross, formado por Alan Martin, Don Drinkwater e Jan Clarys levaram adiante as ideias de Matiekga, avaliando e medindo cadáveres na cidade de Bruxelas – Bélgica. Este estudo modificou diversos conceitos que eram tidos como “leis” até então, proporcionando um dos maiores avanços na antropometria. Estes autores identificaram a grande inexatidão dos sistemas disponíveis na época para estimar a composição corporal, trazendo resultados valiosos para o desenvolvimento de novos modelos matemáticos. Posteriormente, por meio do referido estudo, Willian Ross e Richard Ward criam um sistema de avaliação antropométrica que supera os problemas apresentados nas análises anteriores, trazendo novas aplicações e corrigindo antigas normatizações. No mesmo período, a australiana Débora Kerr, conclui um modelo de avaliação para compartimentalizar o corpo humano em cinco componentes. Este método será apresentado e discutido com maior propriedade no Capítulo 5, já que esta metodologia rege todo o processo antropométrico proposto pela International Society for the Advancement of Kinanthropometry (ISAK).

Texto retirado do livro Antropometria aplicada a saúde e desempenho humano: uma abordagem a partir da metodologia ISAK.

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