Efeitos de calcificação das artérias coronárias em atletas de resistência

A revista Circulation tem um editorial muito interessante a respeito da relação entre exercício e saúde cardíaca. Dados recentes levantam a possibilidade de que, a longo prazo, o grande volume de exercícios de resistência pode acelerar ao invés de reduzir as chances de doença coronária aterosclerose. Com base nisso, os autores Aaron Baggish e Benjamin Levine analisaram dois artigos sobre a associação entre os altos níveis de funcionamento do corpo e os efeitos de calcificação das artérias coronárias.

O primeiro é um estudo de coorte que avaliou 152 ciclistas e corredores profissionais (idade 55 ± 9 anos) e 92 participantes não atletas no grupo de controle com idade semelhante. Os dois grupos sem diagnóstico prévio de doença arterial coronariana.

Eles passaram por testes de estresse físico, ecocardiograma, angiografia coronária tomográfica computadorizada (CTA) com avaliação do cálcio da artéria coronária, ressonância magnética cardiovascular e holter de 24 horas.

Os resultados mostraram que 60% dos atletas e 63% dos participantes do grupo de controle apresentaram escore de calcificação da artéria coronária (CAC) normal. No entanto, os atletas masculinos apresentaram maior prevalência de placa aterosclerótica com irregularidade luminal (44,3% versus 22,2% nos controles). Os escores mais altos foram associados ao número de anos de treinamento físico. 72,7% das placas em atletas homens eram rígidas e ricas em cálcio, contra 30% nos controles. Essas placas restringem as artérias, mas têm menos possibilidade de quebrar e causar um bloqueio completo (o que ocasiona o ataque cardíaco).

Portanto, a conclusão é que, embora a maioria dos atletas de resistência com baixo perfil de risco aterosclerótico tenha pontuação normal de CAC, eles são mais propensos a ter placas coronárias calcificadas.

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O segundo estudo também avaliou se o exercício extremo está relacionado ao desenvolvimento acelerado de aterosclerose e calcificação da artéria coronária, usando TC cardíaca para calcular CAC, seguido de CTCA.

Foram recrutados 284 homens, com média de 45 anos de idade, experiência em esportes recreativos e que não tinham diagnóstico prévio de doença coronariana. Metade dos participantes eram ciclistas ou corredores, mas a coorte também incluiu outros esportes, como futebol. Os homens preencheram questionários sobre sua rotina de exercícios ao longo da vida e, a partir daí, foram divididos em três grupos.

Os resultados revelaram CAC em pouco mais da metade dos participantes (53%), mas no grupo de atletas com treinamento mais alto as pontuações de CAC foram significativamente maiores (68%) do que no grupo com treinamento mais baixo (43%).

De maneira geral, esse estudo também concluiu que o exercício em dose elevada está associado a uma maior prevalência de CAC e placa aterosclerótica com tendência para que a placa seja calcificada ao invés de misturada – portanto, mais benigna.

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Análise dos artigos

Em conjunto, os dois estudos fortalecem a ideia de que o treinamento de resistência a longo prazo pode estar associado a um número maior de placas ateroscleróticas de um tipo menos perigoso.

Segundo os autores do editorial, os artigos representam contribuições importantes para a literatura da cardiologia esportiva, porém deixam muitos questionamentos. Um dos motivos é a ausência de resultados clínicos em atletas com CAC, por exemplo.

Eles também reforçam que os mecanismos subjacentes que resultam nas inesperadas quantidades do CAC ainda não estão bem explicados. E que, portanto, “embora seja tentador, permanece prematuro concluir que as altas doses de exercícios desempenham um papel mecanicista primário no desenvolvimento do CAC. Mesmo que seja possível que o sistema hemodinâmico e fatores mecânicos inerentes ao exercício de resistência possam levar a lesões na parede arterial e calcificação de recuperação, essa hipótese ainda é especulativa”.

Ainda observam que “embora o CAC nas coortes sedentárias e/ou normalmente ativas tenha sido associado a desfechos cardiovasculares adversos, não há dados similares disponíveis para indivíduos altamente ativos. Instamos a cautela contra a generalização reflexa de dados derivados de população não-atletas nesta configuração”.

Por fim, consideram que as pontuações CAC não são prioridades tão grandes em comparação com outros fatores de risco, como pressão arterial e colesterol. E não recomendam reduções na exposição ao exercício, mas sim a busca por estratégias que modifiquem os fatores de risco ateroscleróticos e também “prudentes discussões compartilhadas de tomada de decisão com o paciente sobre os objetivos individuais de treinamento e competição”.

Att. Dr. Andre Lopes – PhD em Ciências do Movimento Humano