Álcool na adolescência: os efeitos para o cérebro e comportamento

Um artigo publicado mês passado na revista Nature Reviews Neuroscience coloca mais uma vez em discussão um tema bem delicado e muito pertinente: álcool na adolescência. Por meio da análise de vários estudos com humanos e ratos de laboratório adolescentes, ele explora os antecedentes desse comportamento e as consequências para as funções neurológicas do corpo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 2,5 milhões de pessoas morrem a cada ano no mundo por causa do consumo excessivo de álcool. Na maioria das vezes, esse hábito começa ainda na adolescência. Todos nós sabemos que essa é uma fase de transições neurais, fisiológicas, cognitivas e comportamentais – e isso pode significar também o desejo por decisões de risco e a busca por novas sensações.

A revisão começa com um detalhamento sobre essas mudanças maturacionais que acontecem no cérebro do adolescente. Os sistemas cerebrais que sofrem alterações de desenvolvimento nessa fase incluem neurônios que usam dopamina – um neurotransmissor que é crítico para o processamento de estímulos gratificantes e os sinais associados a eles. Há evidências que a ativação de projeções de dopamina mesolímbicas para regiões como o estriado dorsal e a amígdala, assim como a ativação das projeções de dopamina mesocortical para o córtex pré-frontal passam por picos na adolescência.

De maneira geral, de acordo com o artigo, “as alterações neurais que ocorrem no cérebro durante a adolescência incluem declínios no desenvolvimento em conexões sinápticas em várias regiões cerebrais e mudanças em associações de redes críticas para favorecer circuitos mais distribuídos em mais circuitos locais. A evidência de montagem indica que a natureza dessas alterações neurais adolescentes pode ser, até certo ponto, dependente da experiência, ajudando a esculpir o cérebro adolescente em um cérebro maduro que é adaptado a essas experiências. Muitas dessas mudanças de desenvolvimento ocorrem em regiões cerebrais que são particularmente sensíveis a doses bastante baixas de álcool, como regiões do PFC e regiões subcorticais que modulam recompensas e funções motivacionais. Portanto, é possível que tal maturação possa ser vulnerável à exposição repetida ao álcool durante a adolescência. Evidências convincentes estão emergindo da pesquisa em humanos e animais de laboratório de que a exposição ao álcool adolescente induz as conseqüências cognitivas, comportamentais e neurais específicas e, muitas vezes, persistentes”.

Os estudos em análise mostram que o efeito neuronal e o efeito cognitivo do álcool podem ser diferentes entre os adolescentes. Eu explico: em algumas pessoas, os efeitos começam após o consumo da bebida, mas em outras as variáveis neuropsicológicas, cognitivas e de personalidade podem ser anteriores a isso e, portanto, acabam servindo como potenciais fatores de risco para uso posterior de álcool.

Bem, o artigo detalha resultados de pesquisas sobre o efeito do álcool no cérebro dos adolescentes e de roedores e faz uma comparação entre as espécies, levando em consideração os níveis diferentes de análises para ambos. As evidências substanciais indicam que a exposição ao álcool na adolescência possui consequências cognitivas e neuronais altamente específicas. “As medidas dependentes examinadas nesses estudos, no entanto, muitas vezes diferiram notavelmente entre as espécies, limitando assim as comparações de achados entre as espécies. No entanto, estudos que empregam medidas semelhantes para avaliar os efeitos da exposição ao álcool adolescente revelaram várias concordâncias emergentes nos achados neurais”.

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Em resumo: as consequências do consumo de álcool em adolescentes humanos incluem alterações na atenção, aprendizagem verbal, processamento visuoespacial e memória, além de desenvolvimento alterado de volumes de matéria cinza e branca e integridade da substância branca interrompida. As consequências funcionais do consumo emergentes de estudos de modelos de roedores da adolescência incluem redução da flexibilidade cognitiva, ineficiências comportamentais e elevação da ansiedade, desinibição, impulsividade e risco. Estudos de roedores também mostraram que o consumo de álcool pode prejudicar a neurogênese, induzir neuroinflamação e alterações epigenéticas e levar à persistência de fenótipos neurocomportamentais semelhantes à adolescência até a idade adulta.

A autora deixa claro que várias questões importantes nessa área de pesquisa ainda devem ser resolvidas em trabalhos futuros. É preciso levar em consideração, por exemplo, que em muitos trabalhos discutidos no artigo, os adolescentes indicaram o uso do álcool associado a outras drogas. Por isso, embora os achados avaliem os efeitos separados e combinados da exposição ao álcool, fica claro que muitas vezes é difícil relacionar conclusivamente os efeitos do uso.

Além disso, são necessários mais dados, por exemplo, para determinar se as vulnerabilidades regionais ao álcool variam em diferentes pontos durante a adolescência, quais os limites de exposição para esses efeitos e o grau em que a recuperação pode ocorrer.

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Att Dr. Andre Lopes – PhD em Ciências do Movimento Humano

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