Ciclo de alongamento e encurtamento (CAE) nos saltos verticais

A maior parte dos movimentos naturais é constituída por uma fase excêntrica (alongamento do músculo) seguida de uma fase concêntrica (encurtamento do músculo). A partir dessa combinação de ações forma-se a função do Ciclo de Alongamento e Encurtamento (CAE) – uma ferramenta fisiológica que aumenta a eficiência mecânica do movimento.

Segundo Moura et al. (1998), o conceito do CAE baseia-se no conhecimento de que “a estrutura muscular é capaz de gerar maior quantidade de trabalho positivo – ou maior potência máxima com a qual esse trabalho pode ser feito – durante uma contracção concêntrica quando é submetido imediatamente antes a uma contracção excêntrica”.

O CAE se manifesta nos músculos dos membros inferiores durante o movimento em diferentes situações, como na caminhada, corrida e nos saltos. Aliás, há anos, trabalhos e estudos muito interessantes especificamente sobre salto vertical vêm impulsionando o desenvolvimento do referencial teórico do Ciclo.

Vários modalidades esportivas usam o salto vertical nos jogos e provas. Em algumas, ele tem ligação com ações motoras mais complexas, como arremessos. Em outras, significa o próprio resultado, como é o caso do salto em altura.

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Um trabalho de UGRINOWITSCH e BARB ANTI (1998) analisou o referencial teórico do CAE para relacioná-lo com os métodos de treinamento utilizados na melhora da performance do salto vertical.

O referencial teórico do CAE

Um dos principais estudos do referencial foi o de KOMI e BOSCO (1978), que observaram o Ciclo em testes específicos de salto vertical através de duas técnicas distintas para a execução. A eficiência do CAE foi verificada por meio de curvas força-velocidade, em que a força gerada era maior, quando comparada à movimentos que não utilizavam esse mecanismo, na mesma velocidade de execução.

A primeira técnica de salto vertical foi chamada de Squat Jump (SJ) ou salto partindo da posição de meio-agachamento. O executante ficava numa posição estática de flexão dos joelhos num ângulo de 90°, mãos na cintura e pés paralelos com um afastamento confortável. Não era permitido um novo abaixamento do centro de gravidade (CG), sendo o movimento apenas ascendente. Assim realizado, a energia potencial elástica acumulada era perdida na forma de calor, devido a manutenção da posição estática assumida, e o salto era realizado somente com a capacidade dos grupos musculares esqueléticos de gerar força sem a utilização do CAE (Goubel, 1997).

A segunda técnica foi chamada de Counter Movement Jump (CMJ) ou salto com contra movimento. Era permitido ao executante realizar a fase excêntrica e concêntrica do movimento. A transição da fase descendente para a ascendente deveria ser feita o mais rápido possível, assim o CAE era utilizado produzindo uma maior geração de força e maior elevação do centro de gravidade (CG) com uma maior eficiência mecânica (menor gasto energético).

Autores como Enoka, citado por HARMAN, ROSENSTEIN, FRYKMAN e ROSENSTEIN (1990), encontraram uma diferença de 12% na altura de elevação do CG, do CMJ para o SJ. Já BAKER (1996), citou um aumento de 15 a 20% do CMJ para o SJ e que um aumento menor do que 10% significava uma má utilização do CAE. ANDERSON e PANDY (1993), determinaram um aumento de 5% de uma técnica para outra e BOBBERT et al. (1996) encontraram uma diferença de 7,6%.

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A maior elevação do centro de gravidade no CMJ não foi explicada apenas pelo uso da energia potencial elástica, mas também por outros mecanismos que aumentaram a eficiência, como o reflexo do estiramento e a ação muscular excêntrica.

As ações de salto vertical dentro da prática esportiva requerem um rendimento muito próximo ao máximo, portanto um aumento de cinco centímetros na elevação do centro de gravidade pode alterar a performance dos atletas. Por isso, entendeu-se que a técnica de salto CMJ era mais utilizada. Na técnica SJ, os músculos não conseguem atingir um alto nível de força para a execução do salto. Não sendo o movimento balístico, o tempo para a produção de uma força equivalente ao do CMJ tem que ser maior.

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Alguns autores colocaram em dúvida a validade dos testes de salto vertical para avaliar a eficiência da utilização do CAE, porque consideraram os aspectos coordenativos mais relevantes para a maior altura de elevação do CG no CMJ.

Métodos de treinamento

O trabalho considerou dois meios para maximizar o salto vertical:

  1. Treinamento com pesos: aumenta força dos músculos esqueléticos  e produz efeitos positivos na elevação do CG no salto
  2. Treinos específicos com a utilização de exercícios de saltos verticais e horizontais para aumentar a capacidade do sistema muscular, como um todo, de gerar força rapidamente.

Conclusões

UGRINOWITSCH e BARB ANTI afirmaram em seu trabalho que, apesar das críticas na avaliação da utilização da energia potencial elástica no CMJ e SJ (Bobbert et al, 1996; Van Ingen Schenau et al, 1997; Komi & Gollhofer, 1997), a maioria dos autores não descartou sua utilização em ações de salto repetidas (Van Ingen Schenau et al, 1997). Já o reflexo de estiramento e a ação muscular excêntrica se mostraram eficientes no aumento da produção de força e, consequentemente, na performance do salto vertical.

Já em relação aos métodos de treinamento, os autores concluíram, na época, que, como eles foram feitos a partir de induções do referencial teórico apresentado para o CAE, ainda era preciso detalhar mais. Somente com experimentação científica em situações próprias de treinamento, as teorias apresentadas poderiam ter validade.

Att. Dr. Andre Lopes – PhD em Ciências do Movimento Humano